terça-feira, 27 de julho de 2010

Revista OUNÃO



Publicação de uns trabalhos e um poema na primeira edição da revista OUNÂO - Publicaçãoes Urbanas, JUN/10.

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99% é transpiração

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olho por muito tempo um
poema
cerrado
como portões de ferro a segurar-me
rasurando a paisagem
calcinado em seus refúgios
até perde-lo de vista
num filete entre os dentes
onde a palavra falta
o bom da arte quando ela volta
nas fotos de família e objetos da infância.
Fui verificar este curto-circuito,
meio dia e um anjo passando com a cara cruzada.
Era apenas fome, abrir a página exata
reconhecendo o que me acompanhava
num dia de sorrisos incondicionais.
Se eu pudesse contar das gotas que caem
e os gemidos que vem levantando escuro
à procura de saber das horas,
esse ronco rabiscando essa falta tremendo.
Seus olhos fechados dizem do que eu consegui pegar.

arvore de frutos maduros

pequena lâmina de uma folha fina
membrana delgada
hora de entrega e embrulho
um cimento unindo células entre si
-tecido atacado, grande, abraça e atravessa-
Se esse medo não vier úmido
na espera de uma árvore de frutos maduros,
empunhará o convite em seus galhos
nascidos de um último pedido.
Assim, só posso dizer da volta,
do rodeio, balbuciando
como as primeiras palavras são.
num verminar,
sinto uma fermentação sanguínea,
uma gula viçosa de plantas rasteiras
que mergulham vigorosas na lama preta
e nutriente da vida,
um prazer animal de existir,
uma satisfação de respirar sobre a terra

Tertúlia

o livro por vir





Vou espiar se apagou a vela
vamos deitar e dormir esta noite
Vou olhar pela janela e sentir este cheiro, este remédio
e apagar a luz
Nesta madrugada não ouvirei o leão do bosque,
seu canto enjaulado como na noite passada,
os gatos já cruzam lá fora
graves como a palavra,
como este diálogo, real
de um corpo ao qual nunca mais poderei esquecer



EU EVO*

Gravadas místicas














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EU EVO

Série de desenhos para uma futura publicação de poemas
coletivos que leva o mesmo nome da série






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João Cabral de Melo Neto



A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

Educação pela pedra









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