segunda-feira, 10 de outubro de 2011

em um outro Bruno

"Acrescentemos ainda que é assaz verossímil que todas as doenças sejam maus demônios: pode-se então, através do canto, da oração, da contemplação e do êxtase, expulsá-los da alma - ou, através de práticas contrárias, convocá-los".

Giordano Bruno em "Tratado da magia".

domingo, 9 de outubro de 2011

medicinal do dia - como abrir uma janela de manhã

isento de pecado e das vocações

roubo ameixa do vizinho

tenho pêra doce em casa

muquio a bola debaixo do paletó

prefiro unicórnios ao invés de cavalo manso

aqueço todas as entidades

não resisto ao destino da alma

não me aflijo com mudanças materiais

sou livre da minha mente



vivo numa casa que se impõe como ser

casa de janelas altas que vem dos sentidos ao espírito

e tudo respira leve

se percebe dentro

num pertencimento que caminha sutil

e não pipoco

sou presença

sábado, 8 de outubro de 2011

Num caminhar com um amigo de infância, cruzamos a cidade e fomos parar nos desenhos que eu fazia nas carteiras da escola. Segundo esse meu amigo – que sabe de mim, coisas que distraído esqueço – eu fazia esses desenhos em tudo que aparecia na minha mão. Sempre fui aficionado por favelas e sua diagramação no espaço. Isso se agravava em meu inconsciente e transbordava em desenhos distraídos – quando falava ao telefone, enquanto conversava com alguém – e também em desenhos objetivos. Cheguei a fechar várias mesas inteiras só com barracos feitos de quadrados com janelas e portas, garatujas formando as escadas e os espaços vagos, em branco, eram as vielas que faziam a ligação entre as moradias deste acúmulo interno. Pensando bem, desenhava mais verdadeiramente naquela época.

Hoje fomos à Brasilândia e lá revisitamos estas imagens.
Desígnio?

De volta ao centro, as paredes tomaram férias, um cheiro muito forte se acrescenta a esse centro, parecia um galho, mas era uma árvore.
Se não for desígnio, não sei de onde vim.
Um futuro filosofo você diria, preta de cabelo possuído, mas estou tão próximo que a prática me eleva a um fazejamento justo.

Hoje conheci um homem que mora na travessa de uma jaqueira. Ele construiu uma casa dentro de uma pedra e dentro da casa que ele construiu e mora, tem outra pedra. Ele dinamita pedras com fogo e água fria, cria seixos com choques térmicos, usando-os para fundamento da casa . O argumento de sua construção é, que viu um dia na TV, um arquiteto que construiu uma casa na pedra e pensou que poderia fácil, fazer o mesmo.

Foi impressionante ver como homens habitam pedras e as controlam, me deu uma inveja, uma ânsia filosófica me tomou e tudo, frente , atrás,direita e esquerda se tornou futuro, como no primeiro livro que li.

O contato com uma água viva é doloroso e queima, pois é um alargamento que come todas as palavras. Quando o indizível reina, percebo o que tenho coagulado. Pois eu poderia contar para um amigo simples o que se passa, mas não bastaria.
No trabalho de esculpir no tempo a eternidade, me suga ver germinar em tudo, um rastro de planta saída da fresta, cantando o céu, como um desenho ou um texto, que só podem ser reais, se forem o idioma íntimo do destino de seu autor.

É nesta lei que habito sem uma regra, participar é uma palavra que cabe, não me isenta e nem bifurca para uma fuga, mas cabe bem nesta imagem deste semelhante, que se espanta e se impõe comovido só por habitar as coisas, como a si próprio.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

a cidade rola num espiral de folhas amarelas
sob o como sempre arrasto minhas sandálias
estouro como uma pipoca

uma abelha veio e colocou mel no meu sangue pela minha boca
um unicórnio colocou a cabeça no meu colo e leu a consciência das palavras
agora posso prometer que ficarei sorrindo
prometer comoções na minha carne ao ver o seu corpo
pois isso são graças, graças raras

psicanálise do fogo



de onde vem a fala

ancestralidade

amizade, a inominada presença nos rodeia


pipoca

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Esparramo meu nome por todas as sopas de letras pela cidade, em todos os gatos, em todo caminhar pela feira com sandálias de couro na imponência de uma só experiência em toda experiência, contrário à ausência - que é o único pecado do espírito, o pecado de olhar uma pedra e só ver uma pedra. Na presença é como moro. Aí é onde devemos morar, aí de fato moramos. Não são várias experiências, todas fazem parte de uma só experiência.

No contentamento desta noção de que não existem vários problemas, sim um único problema, as coisas e os acontecimentos fenomênicos se tornam sopros contínuos. Para converter este sopro aparentemente de fuga em um sopro de vôo, vale retirar o limbo daquela maltratada máxima: “Tudo que não me mata me fortalece”. Esta admissão que vem de uma postura anterior ao olhar, elege um olhar marginália, oposto do que vê cereais e enxerga cereais, oposto do que vê comida e enxerga alimento para o estômago, sim um olhar que come e só de olhar se sacia, um olhar que não resiste e enfia a mão nos cereais.

Não resistir e viver a prata das coisas é um estado – existem lugares, geralmente perto de Deus ou da loucura, que homens afirmam que este estado é o nosso natural e, que o resto é blindagem – de conquista, como uma fogueira que vai queimando a lenha lentamente, ganhando espaço, cavando sua marca na terra. Mas fundado este estado, onde um clarão de eternidade cai sobre a terra, permanecendo nele, se torna fácil e doce afirmar: “se eu não vivesse uma tragédia, seria como se eu não vivesse”.
Compartilho esse sopro medicinal:

ando por terras escavadas
e sob tudo que escama
com formigas nos dentes
permaneço no elemento indefinível
na inominada presença que me rodeia

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Eu não consigo fugir do que de fato é minha missão, anulei meu ego chegando na beira do nirvana, num alto astral, numa saída para a realização, como no fim do poema amizade de Paz ‘’ a inominável presença rodeia-me’’.
Como não, ouço agora uma procissão de pedreiros que edificam, descendo no alicerce, entoando glossolalias que ecoam no quintal entre o muro que está se levantando e a janela. Eles estão descendo no gozo da folga, deleitando o < para si >.
Isso pinta o que está inscrito nas paredes deste lugar , sua única finalidade é o regresso e habitá-lo é ter tudo.

“tenho tudo” é frase de escrever , pichar com x, pela cidade

Frase de nascer não pela própria força, mas de nascer como biologicamente, frase de afirmar o lugar de noção de que a vida me pôs ao mundo, nada fiz e por isso, nada tenho a temer.

Consultei um oráculo

Resposta de Llansol

``Uns sentaram-se a mesa, outros levantaram-se da mesa
todos eles me atravessaram –
Espero que, algures, tenham um jardim a sua espera”

Interiorizei isso escrevendo ao lado de uns papéis colados na parede, juntando com o que já tinha, tentei uma cena fulgor, que diz do lugar que habito e como habitar este lugar – aqui moram vestígios de uma poção, uma conquista que é a mesma de chegar no estágio de ao invés de falarmos “ele morreu”, dizer “ele venceu” – e essa tentativa trago para o prazer, para o sexo de ler

Feito de vazio
a mente me desabita e apaga meu nome e o que sou
já sem mim numa existência pura
empreendo levar-me pela força de toda força viva
raspando a tinta
refletindo em tudo que aqui e agora existe
como um espelho vazio

Umas sentaram, outras se levantaram da mesa
todas me atravessaram
atrás do rio que já tem nome
oposto de mim
me vingo num jardim à minha espera






fico depois da precedência, no E símbolo de desdobramento , na cúpula, nos verbos de ligação, mirando atravessá-los.

Peso!

http://luisfelipequintal.blogspot.com/

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Qual lado?

Lado Antes
Um homem resolveu sair sem tirar sua roupa de trabalho. Fiquei naquela cor de sangue amarelo, num degrade de pulsar, nas botas de borracha suja, nas marcas dos seus ombros e nelas vi gravada, onde ele apóia os pedaços, a carnificina de seu expediente. Vi ele deixando um rastro vermelho no chão, chacoteando os companheiros em voz alta, assobiando, segurando pelo gancho, levando as peças do caminhão até o fundo do açougue, raspando sutilmente no chão sem ninguém ver. Sim , carne era o que não faltava ali, queria, estava presente em corpo e com aquela cara – careca, olho fundo e irônico e aguado, magro e alto, tinha um nariz que cobria a boca, facilmente tocaria a ponta com a língua, como artistas, palhaços e anomalias de circo de horrores, ou amigos disputando habilidades poéticas num bar, ou um avô no auge de seu amor, levando a meia dúzia de netos ao delírio e as tias à indignação, na mesa, em pleno almoço de domingo –, sabia o que estava fazendo, no seu jeito estava uma fala, o que fazia era algo que a muito tempo já deveria ter feito, só faltava coragem. Assim atravessava na busca de uma fresta. Todos se espantaram, aquela intervenção na sua potência, abismou tudo.

A imagem do embarque na linha vermelha fala por si. E ele permaneceu.

Na tentativa do relato está um ônibus abandonado no meio do Alasca
me aproximo dele catando cavaco como quem se recupera de uma surra
e habito este lugar
que se faz quando está com fome

- isso poderia dar uma pergunta, mas na fome o blog do Luiz Felipe Racho é mais justo-

Carrego meu rifle
Afio minha faca
Separo as ervas, daninhas para esquerda e assim por diante

Não, não tem véus em jogo, tudo me reverbera nesse ato suicida
Cadê ele
perguntariam do universo paralelo e metafísico que finca seu pé no chão carnoso


Aqui ó
lendo este vínculo que é o da voz do canto
cuidando do vento que venta da minha boca
e dos reflexos daquilo que riacho
sem espanto percebi uma conjugação pra borrascas
nos livros de Adail se refaz o mundo:

tudo é reflexo da minha mente

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

disse que trouxeram a onça de cima da árvore para aqui no zoológico de Guarulhos
demiti o poema

quis atirar uma pedra mas a Geni sumiu do mapa
um homem com câncer no estômago fugiu do hospital
num gostinho de tocar a questão da fé
uma linha toca a outra e se torna mesma

já não sou eu quem vive
é o inesperado onde a necessidade e a oportunidade se encontram
no cheiro dos meus antepassados
apresento uma reunião de prosperidade onde fui gerado


e nos vemos em Tadassana
lá estarei inscrito na parte côncava
e já havia dito

“do pescoço pra cima é só antecedente”

na mesa do chá com minha avó vi minha mãe velha
o tanto que tenho de catar
e em baixo tem mais

essa é uma lei que me persegue
lei dos garotos rudes, dos meninos habitantes de telhados, dos meninos que bordam, dos meninos que colecionam panos velhos e cumprem sua pena, dos meninos que não dominam a gramática - pora!, isso é o mínimo para quem quer escrever, diriam os estetas que não replantam árvores secas -, dos meninos que não escrevem por que querem e sim por que precisam, dos meninos que são o tesouro, dos meninos que alteraram a gênesis, dos meninos que colecionam pedras por onde passam, dos meninos de olhos de obturador, dos meninos que ouvem os pássaros, dos meninos varão de família rasurada, dos meninos autistas, dos meninos empreendedores, dos meninos langos, dos meninos gagos, dos meninos que carregam todas as ferramentas de palhaço, dos meninos que só enxergam com o olho da nuca,dos meninos que ficam nas rugosidades das palavras,dos meninos que abrem buracos, dos meninos ladrões, dos meninos que não acreditam em doença,dos meninos estrangeiros, dos meninos pais, dos meninos que sonham voar de balão,dosmeninos que acham o pai na teceira margem do rio, dos meninos que rabiscam paredes, dos meninos de manga verde com sal, dos meninos de sal, dos meninos que largam vícios, dos meninos bernardos, dos meninos de inventar brinquedos, dos meninos eternos e dos meninos verdugos.


!me lembrei que existe uma clareira, um lugar aberto, como um lugar à força, mas leve, como um lugar possuído, lá, todos podiam gritar o que estavam sentindo sem a presença dos soldados, até o rei sabia, mas ali era um lugar permitido, uma conquista, um púlpito desmedido para uma catarse possível, fora da jurisdição...lembrei, é um lugar depois da fronteira, alguns dizem que é na fronteira, mas não, eu me lembro, é antes ainda, depois que atravessa,
Um mundo micreiro foi construído ao redor
redução de danos

quando beber um copo de água for isso eu já terei lambido todos os selos

os moleques me perseguem
é um estágio entre meu dedo e minha unha
está lá
e na página que cair lerei aquilo que se inscrever em mim

se gostamos de pensar que todo homem é filho de seu tempo e que sofre de qualquer maneira de todos os males desse tempo, mais violentamente e dolorosamente que os homens mais medíocres, a luta do grande homem contra seu tempo se reduz aparentemente a uma luta absurda e destrutiva que move contra si mesmo





Aí caí e abriu-se a fenda
esse espaço entre o pezinho e o inicio das costas


e que em volta dele seja arrepio


para ser possível hoje

trabalho longe de escrever poemas

perto de um lugar dormido

abro este buraco e aumento

até o idioma intimo do meu destino

sou fenda de voltar para casa